A BATALHA NAVAL DO RIACHUELO
por Douglas de Souza Aguiar Jr.

Ocorrida em 11 de junho de 1865, no início da Guerra do Paraguai, é possível dizer, sem exagero, que a Batalha do Riachuelo é a equivalente sul-americana da Trafalgar de Horatio Nelson: tratou-se de uma vitória decisiva das forças brasileiras sobre o inimigo paraguaio, resultando não apenas na destruição do adversário como força de combate eficaz, mas, principalmente, assegurando a supremacia da Marinha brasileira durante o restante do conflito através de um embate clássico entre as duas forças navais.

Este artigo buscará reviver, em breves linhas, este combate de desdobramentos decisivos para o conflito da Tríplice Aliança.

I. Contexto histórico

No final de abril de 1865, os paraguaios sob comando do general Wenceslao Robles invadiram a província argentina de Corrientes. Esta força tomou de assalto dois vapores argentinos e, juntando-se a outro destacamento, apoderou-se da cidade de mesmo nome, que se converteu em poderosa praça de guerra.

Simultaneamente, em outra operação ofensiva, outro exercito paraguaio sob comando do tenente-coronel Antonio de La Cruz Estigarribia ameaça invadir as fronteiras brasileiras pelo lado de Itapuá.

Sem que encontrassem embaraços à sua passagem, os paraguaios, com forças sempre numericamente superiores, dividem-se e subdividem-se, descendo pelo rio Paraná até Riachuelo, onde se entrincheiram. Inesperadamente os paraguaios decidem por se retirar do local, obrigando o general Wenscelao Paunero, que ia ao seu encontro, a reembarcar suas tropas, e deslocá-las para Rincón del Soto.

Aquela retirada ensaiada dos paraguaios não passara despercebido general argentino, que, sem ter receio do imprevisto, coordenou junto com o Almirante brasileiro Francisco Manuel Barroso da Silva (1804-1882) – cujas duas divisões da esquadra estavam fundeadas em Bella Vista desde de abril de 1865 - um ataque contra as forças paraguaias aquarteladas em Corrientes sob comando do capitão José Maria Rodríguez.

As baixas dos aliados, entre mortos e feridos, somaram 200 argentinos e 21 brasileiros; o inimigo teve 452 mortos, 66 feridos e 86 prisioneiros (de uma guarnição de 2.000 homens). Além de armamento e munições em considerável quantidade, foram capturadas três peças de artilharia e uma bandeira. Martinez, o comandante paraguaio, tendo escapado com seus homens, foi fuzilado por ordem do ditador paraguaio Solano López.

Após sua vitória, Paunero, certo de que Robles o atacaria com os 25.000 homens sob seu comando, embarca as forças argentinas e brasileiras e desce o rio, indo acampar no Rincon.
Agindo com o argentino havia previsto, Solano López embarca no Taquari, a 08 de junho de 1865, uma quinta-feira, com direção a Humaitá, e assiste em pessoa aos preparativos para o planejado contra-ataque, marcando o dia 11, um domingo, como a data para o ataque e abordagem à esquadra brasileira, que ele supunha desprevenida e desguarnecida.

Visando esconder os revezes que acabava de sofrer, um aparentemente calmo Lopez optou assim pelo plano de um formidável combate naval, de que lhe adviriam vantagens imaginarias sobre os exércitos aliados, principalmente a hegemonia sobre o rio Paraná, que lhe asseguraria principalmente receber os recursos para seu exército de fornecedores estrangeiros.

Em reforço à sua força naval, Solano Lopez, mandou o coronel de artilharia Bruguez assentar uma bateria de 32 canhões na margem direita da embocadura do Riachuelo; este, por iniciativa própria, estendeu no local denominado Barrancas, protegido por um montículo, poderoso contingente de infantaria, destinado não só a socorrer a abordagem sob o comando do coronel Aquino, mas ainda a auxiliar a artilharia com a sua fuzilaria.
Três mil homens ali estavam na tocaia. À margem direita da embocadura, de ponto em ponto, outros contingentes se entricheiraram para fim idêntico.

Estava montado o cenário para a batalha.


II. O Embate

A nossa força naval atingia, no local, a 2.287 combatentes, inclusive oficiais de mar e terra, sendo 1.113 de marinha e 1.174 do exército - que se achavam a bordo para qualquer operação de desembarque - e 50 peças de artilharia. Esses membros embarcados do Exército, é bom ressaltar, muito colaboraram para o resultado final do confronto.

O intento dos paraguaios era de atacar a esquadra brasileira na calada da noite, fazendo-se valer do elemento surpresa. Entretanto, a demora de Lopez em autorizar a partida dos navios paraguaios acabou atrasando o início da operação. Alinhados, formando ligeira curva, estavam os navios paraguaios Tacuary, Igurey, Marquez de Olinda (um navio brasileiro que havia sido capturado pelos paraguaios), Salto, Paraguary, Iporá, Jujuy e Ibera, recobando seis “chatas”. Essas “chatas” eram pouco mais que grandes balsas, com costado bem baixo (quase ao nível da água) e com uma bateria de um ou dois canhões, mas, sua aparência “humilde” escondia um inimigo perigoso: para destruí-las era preciso um tiro certeiro para o que era necessário que os navios brasileiros ficassem perigosamente próximos do alcance dos canhões inimigos. Para complicar, como as “chatas” eram ancoradas próximo às margens do rio, a profundidade pequena impedia que os navios brasileiros (de maior calado) se aproximassem sem o risco de encalharem (e virarem alvos fáceis). Essa esquadra partira de Humaitá a meia-noite, mas problemas no maquinário do Ibera atrasou ainda mais o ataque.

Comandada pelo almirante Barroso, a frota brasileira era composta de duas Divisões Navais, totalizando nove navios: Amazonas, Jequitinhonha, Parnahyba, Belmonte, Mearim, Beberibe, Iguatemi, Ipiranga e Araguari. Contava com poder de mobilidade diminuído, pois os navios brasileiros eram de grande calado (impróprios para navegação fluvial).
As forças se avistaram por volta das 9hs da manhã daquele domingo e as forças brasileiras prepararam-se para o combate, sendo que vários dos homens encontravam-se em terra, colhendo lenha para as caldeiras a fim de economizar os estoques de carvão. Do posto de observação de um dos vasos de guerra brasileiros ouvem-se vozes de “Navio á proa!”, seguida de “Esquadra inimiga á vista”. Imediatamente a Mearim, a bordo do qual se achava Barroso, iça o respectivo sinal.

Barroso desfralda sinais, que ordenam: “Preparar para combate!” e, às 9:25hs, manda reativar as caldeiras. Largam-se as amarras sobre as bóias; preparam-se os canhões das baterias de modo que os encarregados da munição descem aos paióis e voltam trazendo projéteis e metralhas, que empilham aos lados das baterias. Atiradores guarnecem as gáveas.

A esquadra inimiga apontou, indo na frente Paraguary, seguido de Igurey e depois Iporá, Salto, Pirabebé, Jujuy, Marquez de Olinda e Tacuary. Neste último está o comandante paraguaio, Pedro Ignácio Meza, com a ordem de abordar violentamente, sem medir sacrifícios, um ou mais navios brasileiros.

Às 10:50hs, a esquadra de Barroso põe-se em movimento, iniciando a marcha a canhoneira Belmonte, cuja guarnição se mostra ansiosa. Seguem-na o Amazonas, para onde se transferira Barroso, e, na mesma linha, avançam, Beberibe, Mearim, Araguari e os demais.
No navio capitania vê-se o sinal que Barroso tornou famoso:

O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever.

Seguiu-se a ordem de “bater o inimigo que estiver mais próximo” enquanto a esquadra ia de encontro ao inimigo. O Jequitinhonha, ao passar em frente à embocadura do Riachuelo, encalha, dando se então fortíssimo tiroteio entre as forças do navio e as tropas paraguaias entrincheiradas no alto do barranco do rio.

Três navios paraguaios tentam abordá-la mas a canhoneira, com o empenho da tripulação,  consegue resistir, obrigada a uma luta desigual, em que a nossa maruja se vê constantemente frente às baterias inimigas. O quadro é estarrecedor: a sua proa, as amuradas, as vergas e os mastros, os escaleres, reduzido a estilhaços, que vão ferindo e matando a tripulação. Morre Lima Barroso e, junto dele, tem a mesma sorte o prático André Motta; outros 17 marujos tombam no combate. Recebem ferimentos o chefe Gomensoro, Freitas, Lacerda e Castro Silva, que resistem firmes nos seus postos.

Enquanto isso, o Parnahyba, ao iniciarsua arremetida para salvar o Jequitinhonha, sofreu uma tentativa de abordagem das belonaves paraguaias Salto, Paraguary e Tacuary. Na cobertura, o Jequitinhonha acerta seguidas salvas sobre o Paraguary, de modo que este recua. Mas os outros navios guaranis sucedem na abordagem ao Parnahyba. No seu passadiço, liderados pelo seu comandante, Capitão-Tenente Aurélio Garcindo Fernandes de Sá, e por Firmino Chaves, Pedro Afonso Ferreira e o Marinheiro de 1ª Classe Marcílio Dias, de 29 anos, a marujada resiste com denodo exemplar.

O Marquez de Olinda embrenha-se na luta, despejando no convés do Parnahyba centenas de guaranis, armados de sabres, machadinhas e pistolas. Segue-se um encarniçado combate corpo-a-corpo, homem-a-homem. Tomba o Guarda-Marinha João Guilherme Greenhalgh, de 20 anos de idade, após abater um inimigo que o intimara a arriar o pavilhão nacional. Também morrem Pedro Affonso e Marcilio Dias, que lutando contra quatro inimigos, mata dois de seus adversários, morrendo em seguida aos golpes de afiadas machadinhas.

Após uma hora de combate o inimigo consegue tomar o convés do Parnahyba desde a popa ao mastro grande. Os oficiais restantes, apoiados pela artilharia de bordo, disparam contra os paraguaios que renovam as suas investidas.  O Mearim e o Belmonte, respectivamente sob os comandos de Eliziario Barbosa e Abreu, buscam socorrer os tripulantes brasileiros.

À essa altura dos combates, prezando pela moral das tropas brasileiras, Barroso desfralda o sinal que se presta a fortalecer o ânimo de suas tripulações:

“Sustentar o fogo que a vitória é nossa"

Ao verem a chegada dos dois navios brasileiros, os abordantes abandonam os companheiros que haviam galgado o convés do Parnahyba. A bordo da Parnahyba chegara-se a vacilar um instante, quase se perdendo a esperança de repelir o inimigo, que se multiplicava com os ininterruptos esforços; o comandante Garcindo chegou mesmo a combinar com o imediato Felippe Rodrigues Chaves que, em último caso e como medida extrema, ateariam fogo ao paiol de munição, fazendo voar pelos ares o navio. Ao ver várias embarcações inimigas, repletas de reforços, se aproximarem, Garcindo transmitiu a fatídica ordem ao seu 1º oficial, escrivão Correa da Silva, que acendendo o charuto, se dispôs a obedecer imediatamente.

Entretanto, ao verem os paraguaios esmorecerem frente ao apoio do Mearim e do Belmonte a guarnição reanima-se e, investindo contra o inimigo aos gritos de “mata! degola!” , liquidam inúmeros adversários, que encharcam o convés com sangue. O Amazonas, que até então se digladiava contra as baterias situadas nas ribanceiras, percebe, através da espessa fumaça, o que se passa a bordo da Parnahyba, e vem em socorro, no exato momento em que o Marquez de Olinda chegava para reforçar a abordagem.

Dá-se, então, um dos ataques mais destemidos da guerra: usando o Amazonas, que tinha a proa de aço e uma melhor manobrabilidade (por ter uma roda de pás), Barroso arremete com seu navio, tal como um aríete, contra o costado do Marquez de Olinda que vai a pique. O Tacuary tenta escapar de uma idêntica manobra do Amazonas, mas Barroso o persegue e o manda para o fundo usando seu esporão de aço.

O Ipiranga, sob o comando de Álvaro de Carvalho e que, assim como o Amazonas, respondia ao tiroteio das baterias costeiras, vem, por sua vez, em defesa do Parnahyba, e com certeiros disparos arromba o costado e as caldeira do Salto, cuja tripulação, em alarido, atira-se na água, sob fogo de fuzil dos marujos brasileiros.

O Ipiranga parte, então, no encalço do Paraguary, crivando-o com uma salva de seus canhões. A Beberibe, cujo comandante Bonifácio de Sant'Anna se mostrara de bravura irrepreensível, persegue os demais navios inimigos. O comandante da Iguatemi, ferido, é levado para o camarote e seu o imediato é decapitado por uma bala, assumindo o comando o jovem Gomes dos Santos, que auxilia o tiroteio durante a perseguição.
 
Álvaro de Carvalho, à bordo do Ipiranga faz submergir uma chata que, à distância, vinha atirando contra os costados da frota brasileira. A tripulação paraguaia foi morta ou carregada pela correnteza, terminando por se afogar. Enquanto isso, o Araguary, sob comando de Hoonholts, passa atrair o fogo dos navios que outrora atacavam o Parnahyba, acrescidos pelo Tacuary, que anteriormente recuara aos disparos do Ipiranga. Mas são repelidos e o Salto é capturado pelo Amazonas.

Os danos causados pelas salvas das chatas disparando ao nível da água causam avarias que ameaçam agora a sobrevivência das belonaves brasileiras. Mas o moral paraguaio já se esvanecera e a frota inimiga, reduzida a quatro navios seriamente danificados bateu em retirada.

Enquanto ainda estava a postos pronto para incendiar o paiol do Parnahyba, sem ter conhecimento do desenrolar da batalha, o oficial-escrivão Correa da Silva, começa a ouvir os gritos entusiásticos das tripulações brasileiras. Ascendendo ao convés, ele avista o vulto imponente de Barroso, sobre a caixa da roda do Amazonas, a bradar:
Vitória!”.

III. Conseqüências

As conseqüências imediatas da batalha logo se fizeram sentir. Robles não mais prosseguiu na invasão da província Argentina de Entre Rios e, ao retornar para as linhas paraguaias, é fuzilado por ordem de López . Estigarribia, isolado nas margens do Uruguai, rende-se aos aliados. Embora não tenha servido para encerrar a guerra, como então pensaram alguns, a batalha mostrou-se decisiva para impor ao Paraguai o isolamento no interior do continente e para limitar-lhe quase que completamente o acesso aos recursos bélicos que lhe seriam necessários.

As perdas da frota brasileira foram de 216 combatentes entre mortos e feridos, assim descriminados por navios:

Nome do Navio

Mortos

Feridos

Amazonas

13

13

Belmonte

09

23

Iguatemi

01

06

Jequitinhonha

08

33

Parnahyba

33

29

Beberibe

05

19

Araguari

02

05

Ipiranga

01

06

Mearim

02

08

Subtotal

74

142

Total

216

Já os paraguaios perderam cerca de 1.500 homens em combates navais (entre mortos, feridos, afogados, comprimidos pelos costados dos navios e prisioneiros), aos quais somam-se outros 1.750 guaranis que guarneciam os canhões nos barrancos do rio e que foram alvo da artilharia embarcada brasileira.

Devido à importância do combate, o pintor Vítor Meireles foi designado para retratar o episódio da Batalha do Riachuelo, sendo que atualmente o quadro encontra-se no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro e é mostrado na abertura deste artigo. Já o Almirante Barroso, a despeito de algumas controvérsias, sagrou-se como um dos principais comandantes da Marinha de Guerra brasileira, que resultou em diversas comendas e condecorações: Comendador da Ordem de São Bento de Aviz; Dignitário da Imperial Ordem do Cruzeiro e Barão do Amazonas. O Almirante Barroso faleceu em 8 de agosto de 1882, aos 78 anos de idade, em Montevidéu, mas seus restos mortais foram trasladados para o Rio de Janeiro em 1908, onde repousam em monumento erguido em sua homenagem na Praia do Russel.

Já seu navio-capitânia, o Amazonas, sobreviveria ao Almirante Barroso e ao próprio Império, dando baixa da Marinha de Guerra apenas em 1897, quando contava com 45 anos de serviços prestados à nação brasileira.

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