Milhões de pessoas por todo o mundo colecionam todo tipo de objetos: caixas de fósforos, selos, bonecas, latas de cerveja, livros, obras de arte...

Sob uma ótica simplista, uma coleção é apenas um hobby, um passatempo. Na verdade colecionar é muito mais que isso. A história humana mostra que graças a pessoas que se preocuparam em guardar objetos, catalogando-os e preservando-os, é que temos conhecimento de nosso passado.

Colecionar é uma necessidade para muitos de nós e isso pode ser tão compulsivo quanto qualquer outro vício. Muitas vezes, a única cura é a aquisição de um item novo e tão almejado para a coleção, prazer que dura pouco, já que a busca é infinita e a “necessidade” de um novo item aparece quase instantaneamente.  De qualquer forma, colecionar é uma atividade saudável, pois estimula a pesquisa, a organização e a interação social, levando o colecionador a abrir seus horizontes.

No nosso caso, a medalhística revela-se uma coleção extremamente prazerosa, pois todas as peças estão intimamente ligadas a eventos históricos e na maioria dos casos contam uma história de bravura ou de mérito pessoal. Se conduzido com paixão, zelo e persistência na busca por informações, o colecionismo permite que, a cada peça adquirida, um episódio histórico ou um ato de mérito pessoal saia das páginas amareladas da história e ganhe vida. Nesse ponto, o colecionador distingue-se do mero “investidor”: ele não adquire sua peça por considerá-la, apenas, um bom investimento, mas, sobretudo, por compreendê-la como um item histórico de significado ímpar – independente de lhe custar dez reais ou um milhão de dólares.

Para quem ainda não coleciona medalhas brasileiras a primeira questão a ser respondida é:
“Aonde eu adquiro medalhas para a minha coleção?”

Antes de responder essa pergunta é importante dizer que adquirir peças para essa coleção não é tarefa das mais fáceis. Diferentemente de outros países, o Brasil não tem uma tradição militar enraizada na sociedade, seja por sermos um país amante da paz que esteve envolvido em poucos conflitos armados, seja por mero preconceito ditado por alguns pseudo-historiadores a respeito de nossa história militar.

O fato é que ao contrário de outros países, não temos eventos (como feiras, congressos, encontros, etc.) voltados para o assunto e são poucos os comerciantes que lidam com esse tipo de material. A busca deve ser feita de forma metódica em antiquários e feiras de antiguidade, leilões na internet, indivíduos que desejam se desfazer de pertences familiares ou em lojas especializadas fora do País. Uma outra maneira é conhecendo outros colecionadores nos locais mencionados acima ou em fóruns de discussão na Internet.

Interessantemente, essa falta de organização acaba por revelar outro fator prazeroso, uma vez que para se ter uma coleção de medalhas brasileiras é necessário bastante esforço do interessado e a “saga” para a aquisição de cada peça, da “caçada” do colecionador por determinado item, acaba se agregando aos itens como parte de sua história.

Outro ponto também é muito importante e deve ser levado em conta pelo colecionador iniciante: o preço das peças que aparecem no mercado.

Para falarmos sobre preços é necessário dizer que, apesar do interesse em condecorações nacionais ser relativamente novo, existe um mercado de longa data para condecorações de outros países, principalmente aquelas relacionadas aos dois grandes conflitos mundiais.

É de extrema importância que o iniciante nesse hobby se informe bastante a respeito do valor médio praticado para cada peça ANTES de se aventurar a pagar o que o vendedor pede por ela. Caso contrário, o resultado pode ser desastroso para o bolso ou até mesmo pode significar o fim prematuro de uma coleção, uma vez que, em muitos casos, inescrupulosos vendedores se aproveitam da ingenuidade do comprador e chegam a pedir até dez vezes o valor médio da peça, atribuindo-lhe uma raridade inexistente.

Não existe uma tabela de preços para esse mercado (ao contrário do que acontece lá fora), porém as regras são bastante simples: quanto mais rara, mais cara. Quanto mais antiga, mais cara. Quanto mais bem conservada, mais cara, e assim por diante. Ou seja, os fatores que determinam o preço são: (1) Raridade, (2) Antigüidade, (3) Estado de Conservação e (4) Originalidade (ou seja, a peça não ter sido restaurada ou partes originais substituídas).

Entretanto, ao contrário do que pode parecer em um primeiro momento, não se trata de um hobby reservado a poucos milionários. Trata-se de um mito – dentre muitos – a afirmação de que a medalhística é um hobby exclusivista mantido como um luxo por pessoas abastadas. Como se pretende mostrar neste site, é possível construir um acervo interessantíssimo em um curto espaço e com um investimento absolutamente adequado à maioria dos orçamentos familiares de uma pessoa normal.

Também é interessante notar que algumas condecorações nacionais históricas ainda são fabricadas hoje em dia. São as chamadas “peças de reposição”, destinadas ao condecorado que perdeu a sua original. Desnecessário dizer que essas peças, apesar de serem consideradas “originais”, tem um valor bem menor do que as entregues à época em que foram efetivamente concedidas. Cabe ao colecionador identificá-las.

Até o momento as falsificações não são motivo de preocupação para o colecionador de medalhas brasileiras, uma vez que essa praga está restrita a condecorações de outros países – o que não quer dizer que elas não possam aparecer no futuro.

No entanto, se ainda somos “abençoados” com a pouca proliferação de falsificações, outras “pragas” podem ser tão destrutivas para uma coleção quanto o prejuízo financeiro ocasionado pela aquisição de uma peça falsa. No mundo da medalhística nacional entendemos que nada é pior que a procedência duvidosa dos itens.

Como foi dito no início, o colecionador acaba atuando como um personagem fundamental na preservação da história. Mas isso também envolve uma responsabilidade em relação ao método pelo qual se constrói a coleção. Esse alerta é fundamental em razão das tristes notícias que vemos na mídia, com freqüência cada vez maior, envolvendo o roubo e a dilapidação dos acervos de museus públicos.

Fruto do descaso de décadas do Estado para com a cultura e da falta de preparo e verba da maioria das Associações que os mantém, os museus brasileiros têm sido constantemente tomados de assalto por pessoas inescrupulosas que furtam itens para revendê-los no mercado de antiguidades. Não pensem que esta conduta criminosa restringe-se à gravuras de Debret ou obras de artes plásticas: isso também se estende aos acervos de itens militares, desde medalhas até uniformes.

Deste modo, o colecionador deve se assegurar que as peças que está adquirindo têm uma origem lícita, advindo de negociantes respeitados ou do espólio pertencente a famílias que estão se desfazendo de peças de seus antepassados. Na desconfiança, não compre e, se possuir provas de alguma conduta ilegal, comunique as autoridades competentes e os demais membros da comunidade de colecionadores. Isso é um apelo que se faz a todos que se julgam não apenas colecionadores, mas, acima de tudo, cidadãos honestos preocupados com as gerações futuras.

Veja abaixo algumas informações úteis sobre como lidar, preservar e conhecer mais as peças da sua coleção.

 

Materiais

 

Independente de seu valor histórico, as condecorações brasileiras foram forjadas com inúmeros materiais, desde os metais mais nobres como o ouro, a platina e a prata, até os mais comuns, como o bronze e o zinco.

Nos tempos do Império, de acordo com a vontade (e o poder financeiro) do agraciado, era possível ter uma condecoração em ouro com incrustações de diamantes e rubis, enquanto no caso de um simples e valoroso praça, a mesma medalha era feita em esmalte e metais mais convencionais.

Alguns regulamentos especificam o metal a ser usado na confecção de cada medalha, sendo que na sua grande maioria esses materiais variavam de acordo com a disponibilidade da matéria-prima no local de sua fabricação.

Casos documentados mostram comendas da mesma espécie feitas tanto em vermeil (prata dourada) quanto em ouro. O real valor de uma comenda reside na premiação do ato pelo qual ela foi conferida, não no metal em que ela foi forjada. Digno de nota é o fato que algumas medalhas trazem no seu verso a especificação e a pureza do metal em que foi criada. (COLOCAR FOTO)

Outro material bastante presente em comendas nacionais (principalmente nas Ordens Honoríficas) é o esmalte. O esmalte é uma substância que em seu estado líquido pode ser aplicada a uma superfície e quando solidificada dá origem a uma camada dura e brilhante. Em peças mais antigas é possível notar o esmalte em sua forma mais pura, que sob a ação da luz artificial gera belíssimos reflexos coloridos.

De uma maneira geral, com o passar dos anos a qualidade e o esmero dedicado à fabricação das peças decaíram, o que faz com que as peças mais antigas tenham uma cotação maior para os colecionadores, como dito anteriormente.

 

Fabricantes

Desde o Império, inúmeros fabricantes foram responsáveis pela confecção de condecorações brasileiras. Alguns ourives tradicionais da Europa fizeram os mais belos exemplares da Ordem da Rosa, enquanto fabricantes de jóias brasileiros também mostraram toda a sua arte em algumas peças que primam pela qualidade dos detalhes.

Na tradicional Rua do Ouvidor, na cidade do Rio de Janeiro, existiam inúmeros fabricantes e alguns estão no mercado até hoje. A Casa da Moeda do Brasil também fabricou inúmeras medalhas, todas com excelente acabamento e alta definição nos detalhes.

É possível identificar o fabricante de algumas peças pela marcação na caixa em que a condecoração era entregue (imagens abaixo) ou por alguma marcação na medalha ou em sua argola. Para olhos mais “afiados” também é possível determinar o fabricante pelas características predominantes na medalha.

Segue abaixo uma pequena lista de alguns fabricantes que estiveram envolvidos na confecção de condecorações brasileiras:

Da Costa – Lisboa
Lemaitre – Paris
Arthus Bertrand, Paris
Victor Resse – Rio de Janeiro
Rothe – Vienna
Aviz – Rio de Janeiro
Randal – Rio de Janeiro
H. Stern – São Paulo
La Royale – Rio De Janeiro
Condal – Rio de Janeiro
Foernges – Porto Alegre
J. Martins – Rio de Janeiro
Casa da Moeda

 

Conservando e organizando a sua coleção

Preciso limpar as peças?

Vamos direto ao assunto: como regra geral nunca limpe uma medalha. Preserve sua pátina e seu envelhecimento natural, pois isso é parte de sua natureza e é utilizado para autenticá-la.

Por lidar com peças antigas, que muitas vezes trazem a marca das décadas em seu corpo, freqüentemente o colecionador se vê tentado a limpar suas peças. Embora, na maioria das vezes, a intenção seja a melhor possível, os resultados quase sempre acabam por desvalorizar ou destruir uma peça histórica de modo irremediável. Isso nos leva à principal “regra de ouro” do colecionismo de medalhas:

Não mexa na peça. Não faça nada em uma medalha que poderá danificá-la a longo termo ou que não possa ser revertido ou desfeito depois de concluído ou mesmo no meio do procedimento.

Algumas pessoas adoram medalhas brilhantes ou com aquela fantástica aparência de “novas” ou “saídas da caixa”. Pois bem, mais uma lição: aprenda a amar uma pátina. Define-se “pátina” como sendo a oxidação causada pela ação do tempo e sua gradual transformação pela ação da luz. Ao contrário do que pode se imaginar de início, essa camada acaba por adquirir qualidades protetoras sobre a peça e, em muitos casos, seu surgimento foi até mesmo previsto pelo fabricante quando da manufatura da peça.

Além disso, quase sempre, acabamentos protetores são aplicados sobre um item quando fabricado, a fim de evitar ou controlar a oxidação. Ao se limpar ou polir uma condecoração, provavelmente essa camada protetora será removida e o item começara a enferrujar de um modo imprevisível. Assim, removê-la (ou o acabamento dado a uma medalha) será, de fato, mais danoso à peça do que a maioria das pessoas pensa.

Uma superfície de metal com uma tonalidade marrom ou preta, resultado de reações químicas que surgiram espontaneamente ao longo dos anos atua, na verdade, como uma camada protetora do metal. Deixá-la onde está irá causar menos danos do que uma tentativa de retirá-la e com certeza a peça ainda estará aqui daqui a 100 anos. Além disso, a pátina trata-se de algo que não pode ser reproduzido ou recuperado e uma vez removida, não há retorno.

Se isso o irrita, então a saída talvez seja colecionar itens novos, como peças de reposição ou mesmo medalhas fabricadas atualmente. Para colecionar medalhas antigas, é preciso apreciar o que é antigo. E isso resulta na observância da “regra de ouro”.

Preservando as medalhas

Uma questão bem distinta de limpar as peças é a sua preservação. Há alguns agentes presentes no dia-a-dia que podem ser danosos às medalhas, como a poeira, luz, suor das mãos, etc., sendo importante algumas orientações sobre como proceder para manter sua preciosa coleção fora do alcance destes agentes.

Basicamente, o acondicionamento de suas peças deve se pautar pelos seguintes princípios:

Evitar a incidência de muita luz diretamente sobre os itens. Isso tende a desbotar a tinta usada nos esmaltes e fitas;

Na medida do possível evitar o contato com poluentes ou agentes agressivos (fuligem, poeira, umidade, removedores, ácidos, suor, etc.);

Manusear as peças com luvas de algodão ou mesmo lenços descartáveis;

Mantê-las em sua condição original, sem efetuar polimentos ou qualquer coisa que remova sua pátina (vide texto anterior).

Caso a peça tenha chegado à suas mãos com muita poeira, é recomendável que seja efetuada sua remoção. Contudo, não confunda isso com uma limpeza completa: apenas poeira deve ser retirada, pois permite a reação química que leva à corrosão. Nesse caso, é possível usar hastes de algodão (os “cotonetes”) embebidas em água destilada e, após a limpeza, use um secador de cabelos (“emprestado” de sua esposa, mãe, ou namorada) para eliminar qualquer vestígio de umidade. Durante este procedimento, mantenha as fitas das medalhas (se for o caso) longe do contato com a água. Uma escova macia pode ser usada, mas apenas em casos absolutamente necessários.

A mesma escova pode ser usada, junto com um aspirador de pó pequeno, para limpar as caixas que acondicionam as condecorações, mas apenas o faça após uma inspeção detalhada na caixa, a fim de observar se é possível desmontá-la sem destruir qualquer tecido ou invólucro, ou mesmo para verificar se não ocorrerá algum dano na parte externa (muitas vezes feita d cartolina prensada ou material imitando couro). Na dúvida, não faça nada.

São procedimentos relativamente simples, e sempre procure atuar com o máximo de cuidado, a fim de evitar problemas que, muitas vezes, nós mesmos criamos e que são de difícil conserto.

Organizando a coleção

À medida que a coleção vai crescendo, é inevitável que algum modo de organização seja adotado pelo colecionador, até mesmo como um meio de permitir a apreciação das medalhas pelo próprio dono e por eventuais visitantes.

O critério adotado deve ser aquele que mais agrada ao colecionador. É possível dividir as medalhas por conflito, força armada, período histórico ou qualquer outro critério. Outras peças diretamente ligadas àquele contexto podem ser adicionadas para criar realçar a coleção, tais como dragonas, insígnias, documentos, etc.

Alguns colecionadores adotam a construção de “displays” como uma alternativa de expor a coleção, montando o que chamaríamos de “quadros temáticos”. Embora possa parecer uma alternativa atraente do ponto de vista visual, essa modalidade pode ter efeitos danosos às peças expostas.

Um tipo de ocorrência infeliz é quando o colecionador solicita a um profissional para montar tais “quadros”. Nesse caso, na maioria das vezes, essa pessoa não tem conhecimento técnico quanto à preservação de medalhas e utilizam materiais ou métodos inadequados para criar o “display”. Há casos em que as medalhas ou mesmo documentos foram colados a um fundo, usando cola de silicone (!!) que longe está de ser um material inerte. Outro problema é que, ao se exibir as medalhas suspensas, cria-se uma tensão sobre as fitas por conta do próprio peso da condecoração. Quando se pensa que se trata de um frágil pedaço de tecido de uma medalha da campanha do Paraguai, por exemplo, você terá um problema nas mãos. Por fim, ao se colocar uma medalha em um quadro, é inevitável que fique exposta a uma quantidade maior de luz, o que, como vimos, é desaconselhável. Outra armadilha freqüente que esse tipo de exposição é a limitação temática que acaba impondo ao colecionador.

O método mais usado por colecionadores avançados e mesmo museus é o acondicionamento em mostruários fechados. Estes podem ser individuais (por medalhas) ou mesmo coletivos, possibilitando que mais de uma peça seja guardada no mesmo lugar. Mais uma vez, não é preciso investir uma quantia grande de dinheiro com a encomenda de um móvel no marceneiro mais caro da cidade. Mostruários e gaveteiros utilizados por lojas de jóias são excelentes alternativas e estão disponíveis a preços muito acessíveis, podendo ser modificados pelo próprio colecionador, caso assim seja necessário.

Independentemente da opção escolhida pelo colecionador, é sempre importante destacar que a exposição das peças, quando feita corretamente, não apenas protege suas medalhas, mas, também, valoriza ainda mais suas peças. O importante, reiteramos, é nunca perder de vista os cuidados com a proteção das peças e não fazer da simples exposição das peças (ou “displays”) um fim em si mesmo.